La Vecchia

Às 8 horas da manhã, como todo domingo há 30 anos o despertador disparou. A velha com um gesto seco o silenciou e lentamente foi se levantando. Ele ficou imóvel. Enquanto vestia o penhoar ela passou a resmungar como sempre fazia, entre um bocejo e outro, reclamando do quanto estava frio. Dizia que não havia dormido bem, pois ele havia roncado, gemido, reclamava do quanto seus pés eram gelados e o quanto isso a incomodava. Ele permaneceu em silêncio.

A velha já de pé abre as cortinas, deixando a luz da manhã invadir o quarto. Ordena que ele acorde, lembra que devem estar na missa às 10 e que ainda devem buscar a irmã dela, pobrezinha, viúva e ainda por cima praticamente cega. Ele a ignora enquanto ela caminha arrastando os chinelos para a cozinha onde vai preparar o café.

Aumentando o volume da voz, para poder ser ouvida no quarto, a velha segue reclamando agora da geladeira que precisa ser trocada pois faz muito barulho, além de gastar muita energia. Dos filhos que nunca ligam, talvez por que quando o fazem só o que escutam sejam queixas e mais reclamações, quando como que por milagre o telefone começa a tocar.

Ela manda, aos gritos, que ele atenda, como sempre o fez. Porém dessa vez, pela primeira vez em 30 anos ele não irá atender. Então, mesmo contrariada, ela atende. Não era nenhum dos filhos e sim sua irmã, que apesar de praticamente cega era capaz de ver as horas como ninguém e ligava para avisar que iriam se atrasar para a missa, como fazia todos os domingos.

Por conta do incidente do telefone o leite ferveu e transbordou, assim como a ira da velha que agora volta marchando para o quarto e aos brados ordena, chamando-o pelo nome e sobrenome, que levante imediatamente daquela cama e limpe aquela imundice do fogão. Porém tudo que obtém como resposta é um sonoro silêncio. Ele permanece ali deitado, imóvel de olhos fechados exatamente como estava quando o despertador tocou.

Naquela manhã de domingo, a única coisa capaz de fazer ele abrir novamente os olhos, seria o prazer de ver a expressão da velha ao descobrir que ele morrera de enfarto às duas e meia da madrugada.

Este post é uma homenagem ao meu bróder Ricardo Mercer e seu sábio avô.

Anúncios

3 comentários sobre “La Vecchia

  1. Coincidentemente pensei muito sobre isso essa noite, reclamar, reclamar, reclamar, quanto tempo perdido…Pra gente pensar e dar valor ao que tem!

  2. Simplesmente do caralho! Parece que você tirou daqueles livros de contos, que a gente abre começa a ler sem nenhuma pretensão e depois não consegue largar. Faz tempo que não leio um desses. Fiquei passando vontade. Manda mais. Parabéns!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s